Arritmias perigosas x arritmias benignas: como diferenciar na prática?

Palpitações são um sintoma comum no consultório e no pronto-socorro. Algumas arritmias são inofensivas e só causam desconforto; outras são arritmias perigosas e podem ameaçar a vida se não forem reconhecidas a tempo.

Este texto explica como distinguir o que é provavelmente benigno do que exige investigação e tratamento imediatos.

O que chamamos de arritmias benignas e de arritmias perigosas?

Arritmias benignas costumam ser episódios curtos, isolados e sem relação com doença estrutural do coração. Exemplos incluem extrasístoles isoladas, quando há batidas a mais, em pessoas saudáveis. 

Já as arritmias perigosas podem provocar perda de consciência, queda do débito cardíaco e morte súbita se não tratadas. Entre esta categoria estão os casos de taquicardia ventricular sustentada ou fibrilação ventricular.

O Dr. Cídio Halperin destaca a importância de entender que a mesma arritmia pode ser benigna em alguém sem cardiopatia e grave em quem tem doença cardíaca.

Ou seja, a avaliação depende menos do nome na ficha e mais do contexto clínico e do exame. É o cenário que define risco.

O peso da história clínica: sinais que não podem ser ignorados.

A história que o paciente conta é o primeiro filtro. Palpitações isoladas e leves, sem tontura e que acontecem em repouso ou depois de café, frequentemente têm menor risco. 

Por outro lado, sintomas como desmaio súbito, palpitação que precede o desmaio, dor torácica acompanhando a arritmia, dispneia grave ou sensação de quase desmaio são sinais de alerta vermelho que exigem investigação imediata. 

Além disso, se o início do episódio acontece durante esforço, se há história de infarto prévio, insuficiência cardíaca ou cardiomiopatia, a probabilidade de arritmias perigosas aumenta muito.

Se a arritmia é acompanhada de desmaio, dor no peito ou fraqueza importante, trate como potencialmente grave até prova em contrário.

Exame e monitorização: ferramentas que decidem.

No consultório, as ferramentas básicas são:

  • eletrocardiograma de 12 derivações, o ECG;
  • monitor ambulatorial como Holter e monitor de eventos. 

Outros exames que ajudam a detectar doença estrutural subjacente e que são usados para diagnóstico:

  • exames de sangue (eletrólitos, função tireoidiana);
  • Ecocardiograma;
  • quando indicado, ressonância cardíaca.

Em pacientes instáveis, com pressão baixa, alteração de consciência ou isquemia, a prioridade é estabilizar e tratar a arritmia. 

Diretrizes contemporâneas recomendam avaliação estratificada usando essas ferramentas para decidir risco e tratamento. O diagnóstico real quase sempre vem da combinação entre ECG, monitorização e imagens cardíacas.

Como interpretar o ECG: dicas práticas para diferenciar VT de SVT.

Uma das dúvidas mais frequentes é se a taquicardia vem do ventrículo (VT) ou do átrio ou complexo supraventricular com condução aberrante (SVT com QRS largo).

Existem critérios e algoritmos, como Brugada e Vereckei, que ajudam a responder. Sinais que apontam para origem ventricular incluem: 

  • ondas QRS muito largas e desorganizadas;
  • dissociação átrio-ventricular (ou seja, átrios e ventrículos batendo sem sincronismo);
  • morfologias típicas para origem ventricular nas derivações precordiais. 

Esses critérios não são perfeitos, mas aumentam bastante a precisão diagnóstica em conjunto com a história clínica.

A orientação é que quando o ECG sugere origem ventricular ou quando houver dúvida clínica, trate como VT até que a investigação mostre o contrário.

Extrasístoles (PVCs e PACs): normalmente benignas, com exceções importantes.

Extrasístoles isoladas são frequentemente tranquilizadoras, mas alta frequência ou sinais de disfunção cardíaca pedem investigação e possível tratamento.

Frequência alta de PVCs significa que a pessoa apresenta muitas extrassístoles ventriculares (PVCs) ao longo do dia, em quantidade maior do que o esperado para um coração normal em repouso.

Extrasístoles ventriculares (PVCs) e auriculares (PACs) são comuns. Em indivíduos sem doença estrutural, geralmente são benignas e só geram incômodo. 

Porém, frequência alta de PVCs, com cargas diárias elevadas, pode, a longo prazo, provocar uma cardiomiopatia induzida por PVC. Ou seja, pode haver uma queda da função de bombeamento do ventrículo causada pela repetição excessiva de batidas fora do ritmo normal.

Por isso, carga de PVC, sintomas persistentes e achados na imagem (ecocardiograma com função reduzida) mudam totalmente a conduta. Daí a importância de sempre investigar a presença de doença estrutural.

Taquiarritmias sustentadas, fibrilação e flutter: quando o risco é imediato.

Fibrilação ventricular e taquicardia ventricular sustentada (persistente por mais de 30 segundos ou que causa instabilidade) são emergências. 

Fibrilação atrial pode ser perigosa quando causa resposta ventricular muito rápida, tromboembolismo ou em pacientes com fração de ejeção baixa. 

Em todas essas situações, a decisão urgente depende de como o corpo está reagindo à arritmia. Quando há instabilidade, são indicadas intervenções imediatas como cardioversão elétrica, uso de medicações na veia ou suporte avançado.

As diretrizes europeias e americanas descrevem protocolos claros para estabilização e estratificação do risco em arritmias ventriculares.

Arritmias sustentadas que causam instabilidade exigem intervenção imediata. Não espere para ver se melhora sozinha.

Descrição prática passo a passo no consultório: o que esperar.

  1. Começa pela história: detalhes do início, duração, gatilhos, presença de perda de consciência ou dor no peito;
  2. Exame físico e ECG de12 derivações. Se estiver instável, o encaminhamento é imediato para atendimento de emergência;
  3. Para pacientes estáveis com episódios intermitentes, haverá monitorização (Holter 24 ou 48h ou monitor de eventos por semanas);
  4. Solicitação de ecocardiograma e exames laboratoriais quando houver suspeita de doença estrutural ou causas reversíveis (eletrólitos, tireoide);
  5. Encaminhamento ao eletrofisiologista quando houver arritmia sustentada, alta carga de PVC, síncope inexplicada ou necessidade de avaliação para ablação ou implante de desfibrilador.

Esses passos formam um fluxo lógico que separa o que pode ser cuidado de forma ambulatorial do que precisa de intervenção especializada. Um protocolo simples, com história, ECG, monitorização e imagem, reduz risco e evita atrasos no tratamento.

Quando a indicação é apenas acompanhar e quando é necessário intervir

Muitas arritmias benignas não exigem tratamento além de orientação como:

  • reduzir estimulantes;
  • avaliar ansiedade;
  • corrigir eletrólitos. 

No caso de arritmias que provocam sintomas significativos, risco de morte súbita ou cardiomiopatía por arritmia, as opções são:

  • medicamentos antiarrítmicos;
  • ablação por cateter;
  • implante de cardiodesfibrilador (ICD). 

A decisão depende da origem da arritmia, da presença de doença cardíaca e do impacto na qualidade de vida. 

Diretrizes atualizadas detalham indicações para cada procedimento e intervenções invasivas são reservadas aos casos em que os benefícios superam os riscos. 

Nem toda palpitação é perigosa, mas nenhuma palpitação deve ser ignorada se vier acompanhada de desmaio, dor no peito, falta de ar importante ou se surgir em alguém com cardiopatia conhecida. 

Se você ou um familiar tem palpitações recorrentes, episódios de desmaio ou já foi diagnosticado com arritmia, agende uma consulta com o Dr. Cídio Halperin para uma avaliação de risco e tratamento seguro.

Clínica Cidio Halperin

Rua Mostardeiro 157 Conj. 703/704 | Moinhos de Vento

Porto Alegre/RS